top of page

Estudo de Caso: Projeto de Aplicativo para Leitores - Parte 1/2

Concepção, UX e Estratégia de Produto


Introdução


O projeto do aplicativo para leitores nasce a partir de uma observação minha: a leitura, enquanto prática, vem sendo influenciada por lógicas de produtividade, desempenho e consumo.


Os aplicativos amplamente utilizados para registro de leitura estão priorizando:


  • quantidade de livros lidos,

  • metas e números,

  • padronização de comportamento,

  • métricas "corporativas" de desempenho.


O objetivo do projeto é propor um caminho alternativo a essa lógica de produtividade em uma atividade que deveria ser encarada de forma mais pessoal. A ideia é criar um produto digital que não trate a leitura como unidade de produção, e sim como uma experiência subjetiva e contextual.


O problema


Boa parte das pessoas hoje, encaram seus hobbies como algo que precisa funcionar dentro da lógica capitalista de alguma forma. Seja por eficiência no cumprimento de metas ou pela monetização da atividade como serviço.


Quando se trata de leitura, o que acontece é que as pessoas estão muito preocupadas com coisas como: comprar mais livros do que de fato ler (consumo desenfreado), terminar as leituras mais rápido do que viver a experiência (por cumprimento de metas), parecer pertencer a algo mais do que de fato ser (ex.: parecer ser um leitor X é mais importante do que o ato de ler).


No início de Design como atitude, Alice Rawsthorn discute o design como uma prática que responde diretamente a mudanças sociais, políticas e econômicas. É possível perceber o reflexo disso em como os aplicativos de leitura têm se desenvolvido para abraçar essa demanda:


• priorizam contagem e metas

• associam progresso excessivo a desempenho

• criam uma pressão simbólica sobre eficiência

• focam na tarefa e não na experiência


Tudo isso incentiva uma cultura de culpa, por não ler o suficiente ou por ser devagar em comparação a outras pessoas, por exemplo. Gera um distanciamento emocional e genuíno do ato de ler. O sentido real, que deveria ter a ver com conexão, presença ou aprendizado, se perde no meio dos dados.


A pesquisa


Para validar as hipóteses levantadas, uma pesquisa exploratória foi realizada com 15 participantes de um clube de leitores. O resultado revelou os seguintes padrões:


  1. A culpa vem menos de não ler e mais de comparação. A frustração não surge apenas da ausência de leitura, mas da ideia do que o leitor “deveria ser” ou com quem ele deveria se parecer.

  2. A leitura é valorizada como experiência transformadora. Há forte consenso sobre o que torna uma leitura significativa: conexão, mudança de perspectiva, evolução pessoal, imersão emocional, reflexão e autoconhecimento.

  3. Registrar a leitura é uma ação desejada, mas precisa ser leve e pessoal, ou personalizada. A experiência depende da mecânica desse registro.

  4. Abandono aparece como uma prática comum, mas raramente é neutra (geralmente é motivado por fatores como: não gostar da escrita; falta de conexão com universo e personagens; cansaço mental, ansiedade, excesso de trabalho...).

  5. Plataformas atuais entregam dados com o intuito de mostrar performance, mas falham na experiência.


Captura de tela de dados da pesquisa
Microsoft Word: parte do documento de síntese da pesquisa.

👉 A leitura aparece como atividade emocionalmente carregada, cheia de cobrança simbólica, mesmo entre quem lê com frequência. 👉 Os participantes reconhecem outros meios de leituras que vão além do tradicional, que é ler livros. 👉 Quase ninguém associa significado a quantidade lida. (Então por que essa métrica é destacada?)

Captura de tela de frases que chamaram atenção nas respostas da pesquisa.
FigJam: Frases que me chamaram atenção e que validam as desconfianças nas respostas da pesquisa

Apesar desse levantamento de problemas, os participantes mostraram que valorizam a leitura como uma experiência de transformação pessoal, um momento de reflexão ou até mesmo uma forma de conexão com ideias e contextos.


Portanto, conclui-se que existe uma tensão entre como a leitura é vivida vs como ela pode ser representada em informações e dados.


Resposta ao problema: o objetivo do projeto de aplicativo para leitores


O aplicativo deve fortalecer a relação entre leitores e suas leituras. O produto tem como principal objetivo apoiar o usuário no registro e na compreensão das suas experiências ao longo do tempo.


A ideia central consiste em deslocar o foco dos dados que priorizam volume e levá-lo para a experiência, priorizando informações descritivas e personalizadas (que fortalecem a expressão pessoal), em vez de métricas de produtividade. Aqui, o histórico de experiências de leitura vai entrar como narrativa e não como desempenho.


Captura de tela que resume os Princípios de Produto.
FigJam: Princípios de Produto

Após a etapa de pesquisa, o projeto foi estruturado a partir de princípios definidos que correspondem ao que foi analisado nas respostas. Além dos Princípios de Produto, que vemos no anexo acima, também foram definidos os Princípios de UX:


  1. Reflexão no lugar de produtividade: a interface convida o leitor a ter uma percepção sobre si e não a ter produtividade. Perguntas são abertas ou focadas em feedback emotivo. No progresso, dados são mais descritivos que avaliativos.

  2. Baixa pressão cognitiva: o design não deve competir com a leitura pela atenção. Os fluxos devem ser simples e as ações práticas, pois serão tarefas repetitivas.

  3. Nenhuma visualização de dado ou informação existe sem uma pergunta clara por trás: se o usuário não entende o que está vendo e por que isso importa, não entra no produto.

  4. Narrativa pessoal acima de comparação social: o centro da experiência do usuário é a sua história como leitor. Deve valorizar a autenticidade e o autoconhecimento.

  5. Design escalável: mesmo sendo a primeira versão, há espaço para crescimento. Arquitetura de dados e componentes já são pensados para versões futuras.


Perguntas centrais


O primeiro protótipo do MVP (Produto Mínimo Viável - do inglês Minimum Viable Product) foi estruturado com base em um conjunto de perguntas que serviram de orientação para definir as funções do produto. Essas perguntas determinam quais dados são coletados e como eles serão apresentados.


As perguntas foram:


  • Como me relaciono com as leituras ao longo do tempo?

  • Quais tipos de leitura conseguem me engajar mais, e em quais contextos?

  • Em que momentos minha leitura flui e em quais ela trava?

  • O que meus abandonos me dizem sobre mim como leitora(or)?

  • Como me sinto durante e após a leitura?

  • Que padrões definem meu jeito de ler?

  • O que considero relevante na minha experiência de leitura?


👉 Se uma funcionalidade ou gráfico não responde a pelo menos uma dessas perguntas, não entra no MVP.

"Se as pessoas entenderem, não é preciso explicar. Se não entenderem, não adianta explicar."

Jean Prouvé

Estrutura de dados


O modelo conceitual do MVP (Produto Mínimo Viável - do inglês Minimum Viable Product) foi composto por três entidades centrais:


  1. Leitura - Representa qualquer material lido pelo usuário, independentemente de formato ou suporte.

  2. Experiência de Leitura - Concentra registros subjetivos sobre como uma leitura foi vivenciada ao longo do tempo. Uma Leitura pode conter múltiplas Experiências de Leitura e o conjunto dessas experiências compõe o histórico da leitura e influencia o Perfil do Leitor.

  3. Perfil do Leitor - Reúne informações derivadas do histórico de leituras e experiências registradas pelo usuário. Não se trata de um perfil comparativo ou social, mas de um resumo narrativo do histórico do leitor.


Essas entidades permitem observar, registrar e sintetizar a relação do usuário com a leitura ao longo do tempo.


💡 Curiosidade: Inicialmente, existia uma quarta entidade chamada Sessão de Leitura, mas, após certa reflexão, cheguei à conclusão de que ela se tornava redundante diante da entidade Experiência de Leitura. As duas foram mescladas e agora contemplam uma coisa só. Essa mudança também simplifica como funciona para o usuário realizar os registros, deixando a ação mais prática.

O protótipo do MVP foi estruturado com base em dois núcleos principais: Home e Perfil do Leitor.


Fluxograma em fundo pontilhado com Home e Perfil do leitor ligados a blocos A, B, C/F sobre leituras, atividades e histórico.
FigJam: definindo a estutura do produto

O objetivo desse protótipo inicial foi de contemplar fluxos essenciais (registro de nova leitura, registro de experiência de leitura, atualização de status da leitura, consulta aos dashboards do perfil).


Wireframes em de média fidelidade. Primeiro protótipo do MVP.
Figma: Wireframes de média fidelidade

Essa primeira etapa de Concepção, UX e Estratégia de Produto buscou estabelecer o posicionamento do produto, validar o problema e entender o que entra e como entram as informações no MVP.


O resultado foi um sistema que trata leitura como experiência subjetiva, organiza dados sem impor métricas de desempenho e permite ao usuário observar padrões ao longo do tempo como narrativa pessoal.


Esse estudo de caso de projeto de aplicativo para leitores tem como objetivo documentar o processo desse projeto.


Próxima etapa


A segunda parte desse estudo de caso irá abordar:


  • a tradução dessa estrutura em interface,

  • construção protótipo de alta fidelidade,

  • design system + documentação.


Referências de estudo para o projeto


Cairo, Alberto. The Functional Art

Few, Stephen. Information Dashboard Design

Norman, Don. The Design of Everyday Things

Rawsthorn, Alice. Design como atitude

Cardoso, Rafael. Design para um mundo complexo

Comentários


bottom of page